CAPÍTULO I
Como muitas vezes na vida, foi preciso acontecer um fato triste para que nossa história tivesse início, para que um
milagre ocorresse.
Não tenho mais antepassado direto morando no
Rio de Janeiro.
Por parte de mãe, meus tios vivem no interior
da Bahia, no Município de Itiúba. Por parte de pai, a única tia remanescente é a
minha madrinha Juracema Nogueira de Souza, viúva do médico Dr. Luiz Vieira
Sobral, que mora em Aracajú, capital do Estado de Sergipe.
Ela teve
cinco irmãos: Moema, Iracema, Zurema, Amure, meu pai biológico, e Tuhicema, a caçula.
Quando esta morreu em 25 de fevereiro de 2000, em Aracaju, fui alguns meses
depois ao seu apartamento, que ficava à Rua Ribeiro da Costa, no
bairro chamado Leme, no Rio de Janeiro, para limpá-lo a fim de que tivesse condições de ser
vendido.
Era um imóvel pequeno, quarto e sala, porém
bem arrumado e bem jeitoso.Tia Tui era cuidadosa e fazia tudo com muito
carinho. Havia morado antes na Avenida Nossa Senhora de Copacabana, onde
cuidara de meus avós paternos João Nogueira de Souza e Maria da Conceição
Nogueira, por muitos anos, deixando até de cuidar de sua vida pessoal em favor
deles. Apesar de ter bons relacionamentos, estar sempre acompanhada de rapazes
bonitos e ter recebido vários pedidos de casamento, preferiu ficar sozinha para
melhor ampara-los. Embora sempre tivesse a ajuda das irmãs, foi a que se
sacrificou mais porque não se casou. Até a morte não conseguiu formar um lar e
ter filhos. Quem passou por isto, sabe a falta que faz.
Tia
Moema casou-se com o Marechal Armando Bandeira de Morais, em 03 de setembro de
1952, na cidade do Rio de Janeiro. Mais tarde se tornariam nossos pais
adotivos, depois que minha mãe, Dejanilda Ferreira do Nascimento, faleceu. Este
fato triste aconteceu em 28 de junho de 1968. Ela era muito forte e um exemplo
de dedicação e caridade. Passou por muitas dificuldades devido à doença de meu
pai, que, movido pelas alucinações esquizofrênicas, chegava a ser bruto, violento.
Muito diferente daquele noivo apaixonado que escrevia cartas de amor e que a
tratava com todo o carinho do mundo. Quando se casaram, em 22 de junho de 1955,
na cidade de Salvador, estado da Bahia, não sabiam que iriam passar por tantos
problemas. Resignada, acreditando ser seu dever cuidar do marido e suportar
suas atitudes por ter sido fruto da vontade divina, mas sentindo na pele e no
coração a dor que isto tudo provocava, foi certo dia amparada por uma freira,
quando rezava pedindo forças, chorando,
num dos bancos da Igreja ....Desde então se dedicava a ajudar as irmãs da Casa
do Pobre, que funcionava no antigo prédio da Praça Arcoverde, onde agora
funciona a Catedral. Ia visita-la algumas vezes e numa destas visitas lembro de
te-la carregado no colo. Lembro também de uma festa de aniversário que passei
na Casa do Pobre, quando estava num prédio na Rua ... Naquela época já morava
com a Tia Moema e o Tio Armando, separado de meus pais e da minha irmã
Teresinha, por falta de condições financeiras paternas para o sustento da
família. Esta é a razão pela qual não pude vivenciar, como a Teresinha, os
acontecimentos da Rua Santa Clara, número ..., onde moravam. Vagamente me
recordo do calor dos abraços da mamãe, mas ficou firme na minha personalidade
seu exemplo de mulher forte espiritualmente, de força interior invejável. Força
esta que tornava seu corpo físico mais resistente e mais preparado para superar
as tormentas. Apesar delas, era uma pessoa alegre, divertida, descontraída.
Infelizmente não pude ter uma convivência maior com ela, mas o pouco que
passamos juntos influenciou minha vida significativamente. Mudou a minha
trajetória como veremos mais tarde. Papai gostava de mim, mas sua paixão foi
sempre a Terezinha. Era Terezinha pra cá, Terezinha pra lá. Quando ela adoecia,
ele ficava transtornado. Só se acalmava quando melhorava. Também tinha suas
razões. Ela sempre foi um doce de criatura. Mimosa, carinhosa, atenciosa,
meiga, delicada. Tudo que um pai gostaria de encontrar numa filha. Comigo ele
não precisava se preocupar porque desde os meus cinco anos, no início de 1961,
época em que chegamos no Rio de Janeiro, fiquei sob os cuidados da Tia Moema,
inclusive morando com ela desde então. Também ajudaram na minha criação a Tia
Iracema e a Tia Tui. Estavam sempre juntas. Aliás, faziam tudo juntas. Choravam
juntas, riam juntas, brigavam juntas e ficaram juntas até a morte. Não tiveram
seus próprios filhos e nos transferiram todo o amor que dedicariam a eles. Foi
muito amor, amor até demais, se é possível se amar demais. Exemplos de família
unida, mesmo que isto significasse ciúmes, discórdias, opiniões divergentes, se
precisasse, como precisou mais tarde, dariam suas vidas pelas outras. Papai por
ser o único filho homem, foi sempre paparicado pela mãe e sempre teve mais sua
atenção. Parece que já sabia intuitivamente, com antecedência, sua fragilidade
emocional. Depois de viverem bem, enquanto meu avo João quis permanecer no seu
emprego de caixa na empresa inglesa ...., perderam tudo quando ele foi enganado
por sócios inescrupulosos no comércio. Minhas tias superaram esta fase difícil,
até ajudaram a fabricar doces caseiros e vende-los, para ajudar no sustento da
família, sem maiores complicações. Só passaram a valorizar mais o que
conseguiam, tiveram a preocupação de não esbanjar, dividiam com os irmãos o que
possuíam, até comer o necessário, comedidamente, não com os olhos. Com papai
foi diferente. Não ter mais as roupas sempre novas, os sapatos mais adequados,
todo o conforto, enfim, de antes, nem as mesmas amizades, o mesmo convívio
social, já que se mudaram de Manaus, para Belém do Pará, quando vovô, revoltado
por não ter sido promovido, como esperava, depois de anos de dedicação onde
demonstrou sua capacidade, preterido em
favor de um colega mais político do que ele, que usou de manobras para
conseguir o cargo, resolveu trocar de ares, de cidade, de estado. Com a
indenização e economias tentou abrir negócios próprios, mas o que conseguiu foi
ser enganado e passado para trás. Felizmente estava de seu lado uma mulher que
o apoiou e o confortou nos momentos mais delicados. Tinham saído de seu Ceará,
procurando lugar melhor para viver. Não sei se já se conheciam anteriormente,
possivelmente sim, por serem primos. Casaram-se em 23 de novembro de 1906, na
cidade amazonense de Itacoatiara, interior do estado. Os filhos nasceram todos
em Manaus. Criaram-se em Belém, no Pará, e aos poucos se transferiram para o
Rio de Janeiro, exceto Tia Jujú, que foi a primeira a se casar. Sempre
procurando um porto seguro, sempre peregrinando, como bons cearenses. Papai
conseguira, através de amigos influentes, um trabalho na Prefeitura de Belém,
como fiscal de obras. Até estava enamorado de uma amiga da família e tudo
levava a crer que ficaria por lá mesmo. Contudo, o amor filial falou mais alto.
A vovó pediu que a acompanhasse, para continuar nas barras de sua saia. Aqui no
Rio, ficou deslocado, jamais conseguiu se reestruturar. Fez concurso para
técnico rural do Ministério da Agricultura e passou. Sucesso provisório.
Constantes viagens pelo interior do Brasil, podem te-lo feito feliz, porque
amava a natureza. Tanto que anos mais tarde, ao passar pela Linha Vermelha,
perto do Fundão, local que quando faz calor exala um cheiro terrível devido aos
manguezais, não reclamou do fedor, por ser natural! Papai precisou da ajuda das
irmãs a vida toda. Não era independente e não tinha condições psicológicas para
conviver com minha mãe, com um temperamento totalmente diferente. Ele era
tímido, retraído e desconfiado, cismado com as coisas. Ela muito jovem, com
dezoito anos e ele com quase quarenta anos. Para uma pessoa normal esta
diferença de idade não causaria problemas, mas papai tinha dificuldades para se
relacionar com as pessoas. Enquanto mamãe dançava nos bailes com as amigas,
papai ficava conversando com os pais delas, sentado. Foi inevitável o ciúme
aparecer e desencadear a doença, que estava só esperando uma brecha para
aparecer. Mamãe nunca deu motivos para tanto ciúme e preocupação, mas qualquer
atitude expansiva dela o levava a desconfianças infundadas. Quem tiver a
oportunidade de conhecer a família da mamãe, vai saber do povo alegre,
descontraído e chorão que é. Ela acabou pagando por esta alegria de viver.
Dizem meus tios maternos que ela sempre quis sair do interior e viajar. Conseguiu
o que queria. Conheceram-se numa estação de trem. Ela estava no vagão e quando
seus olhares se cruzaram foi amor a primeira vista. Papai estava em trânsito.
Ficou tão apaixonado com aquela jovem tão bonita que esqueceu sua timidez.
Voltou várias vezes até conseguir falar com ela, chamar-lhe a atenção. Tenho as
cartas de amor e vou apresenta-las mais a frente.Pena que terminou
tragicamente. Foi notícia no jornal e no rádio. Mas para mim, ela morreu do
coração e foi para o céu. Isto eu não tenho dúvidas. De lá deve estar me
ajudando como Deus permite e à Terezinha também. Papai faleceu em minha casa na
Ilha do Governador, ao desistir de viver, com quase noventa anos de idade, em
22 de fevereiro de 1996. Oficialmente com 84 anos de idade, pois na carteira de
identidade consta ter nascido 30 de setembro de 1911. Sua doença não tinha a
mesma força de antes, só falava sozinho, resmungava alguma coisa que não
entendíamos, mas não maltratava ninguém. Eu e minha família só tínhamos que ter
paciência com as atitudes diferentes dele. Andou mudando de local de moradia
periodicamente. Ora perto de mim, ora perto da Terezinha. Levei-o várias vezes
para ser internado no Hospital Dr. Eiras, no bairro de Botafogo, dizendo que o
estava levando apenas para uma consulta. Isto me doía, mas era necessário.
Sofri, mas isto me tornou mais forte e mais tolerante com as pessoas e com os
acontecimentos da vida. Todo mundo deveria visitar hospitais, creches,
orfanatos, coisas do gênero, para dar valor aos benefícios que recebe de Deus.
Quanta gente tem muito menos que nós e não reclamam da vida, não usam isto como
desculpa para usar drogas, maltratar os outros e ter inveja. Devemos ter a
sabedoria para nos fortalecer com os problemas da vida e não reclamar deles.
Devemos usar estas experiências em nosso favor. Em vez de nos prejudicar, na
verdade estão nos preparando para suportar sofrimentos maiores.Mamãe nos deixou
aos 32 anos, pois nasceu em 27 de dezembro de 1936, na Fazenda Mangá, Itiúba.
Foi a segunda filha do primeiro casamento do meu avo Manuel Cesário do
Nascimento com minha avó Francelina Ferreira. Ao todo ele teve quarenta filhos
com suas três esposas. Quinze morreram anjinhos ainda crianças. Ainda estou
procurando conseguir o nome deles, mas está difícil. A cruz que cada um levou
no seu túmulo, de chão batido no cemitério rústico de interior, está com a
identificação inelegível, e não existem certidões de nascimento ou de óbito,
porque nestes lugares afastados, normalmente só são emitidas para requerer
algum benefício do INSS. Mas ainda não desisti. A minha esperança é uma lista
com os nomes dos filhos que talvez meu avô Manuel tenha feito para comprovar,
em festivais de vaqueiros, que era o vaqueiro com maior número de filhos. Numa
destas festividades, depois de comprovar o alegado, espero que por escrito,
saía apressadamente, quando lhe perguntaram a razão de tanta correria.
Respondeu que estava querendo chegar rápido em casa para fazer mais um filho!
ATUALIZAÇÃO: Tia Juracema (Jujú) faleceu no dia 30 de agosto de 2006, em Aracaju/SE.