sexta-feira, 19 de junho de 2015

FAMILIA NASCIMENTO NOGUEIRA DE SOUZA

CAPÍTULO I



                        Como muitas vezes na vida, foi preciso acontecer um fato triste para que nossa história tivesse início, para que um milagre ocorresse.
                        Não tenho mais antepassado direto morando no Rio de Janeiro. 
                        Por parte de mãe, meus tios vivem no interior da Bahia, no Município de Itiúba. Por parte de pai, a única tia remanescente é a minha madrinha Juracema Nogueira de Souza, viúva do médico Dr. Luiz Vieira Sobral, que mora em Aracajú, capital do Estado de Sergipe.
                        Ela teve cinco irmãos: Moema, Iracema, Zurema, Amure, meu pai biológico, e Tuhicema, a caçula. Quando esta morreu em 25 de fevereiro de 2000, em Aracaju, fui alguns meses depois ao seu apartamento, que ficava à Rua Ribeiro da Costa, no bairro chamado Leme, no Rio de Janeiro, para limpá-lo a fim de que tivesse condições de ser vendido.
                        Era um imóvel pequeno, quarto e sala, porém bem arrumado e bem jeitoso.Tia Tui era cuidadosa e fazia tudo com muito carinho. Havia morado antes na Avenida Nossa Senhora de Copacabana, onde cuidara de meus avós paternos João Nogueira de Souza e Maria da Conceição Nogueira, por muitos anos, deixando até de cuidar de sua vida pessoal em favor deles. Apesar de ter bons relacionamentos, estar sempre acompanhada de rapazes bonitos e ter recebido vários pedidos de casamento, preferiu ficar sozinha para melhor ampara-los. Embora sempre tivesse a ajuda das irmãs, foi a que se sacrificou mais porque não se casou. Até a morte não conseguiu formar um lar e ter filhos. Quem passou por isto, sabe a falta que faz.          
Tia Moema casou-se com o Marechal Armando Bandeira de Morais, em 03 de setembro de 1952, na cidade do Rio de Janeiro. Mais tarde se tornariam nossos pais adotivos, depois que minha mãe, Dejanilda Ferreira do Nascimento, faleceu. Este fato triste aconteceu em 28 de junho de 1968. Ela era muito forte e um exemplo de dedicação e caridade. Passou por muitas dificuldades devido à doença de meu pai, que, movido pelas alucinações esquizofrênicas, chegava a ser bruto, violento. Muito diferente daquele noivo apaixonado que escrevia cartas de amor e que a tratava com todo o carinho do mundo. Quando se casaram, em 22 de junho de 1955, na cidade de Salvador, estado da Bahia, não sabiam que iriam passar por tantos problemas. Resignada, acreditando ser seu dever cuidar do marido e suportar suas atitudes por ter sido fruto da vontade divina, mas sentindo na pele e no coração a dor que isto tudo provocava, foi certo dia amparada por uma freira, quando rezava  pedindo forças, chorando, num dos bancos da Igreja ....Desde então se dedicava a ajudar as irmãs da Casa do Pobre, que funcionava no antigo prédio da Praça Arcoverde, onde agora funciona a Catedral. Ia visita-la algumas vezes e numa destas visitas lembro de te-la carregado no colo. Lembro também de uma festa de aniversário que passei na Casa do Pobre, quando estava num prédio na Rua ... Naquela época já morava com a Tia Moema e o Tio Armando, separado de meus pais e da minha irmã Teresinha, por falta de condições financeiras paternas para o sustento da família. Esta é a razão pela qual não pude vivenciar, como a Teresinha, os acontecimentos da Rua Santa Clara, número ..., onde moravam. Vagamente me recordo do calor dos abraços da mamãe, mas ficou firme na minha personalidade seu exemplo de mulher forte espiritualmente, de força interior invejável. Força esta que tornava seu corpo físico mais resistente e mais preparado para superar as tormentas. Apesar delas, era uma pessoa alegre, divertida, descontraída. Infelizmente não pude ter uma convivência maior com ela, mas o pouco que passamos juntos influenciou minha vida significativamente. Mudou a minha trajetória como veremos mais tarde. Papai gostava de mim, mas sua paixão foi sempre a Terezinha. Era Terezinha pra cá, Terezinha pra lá. Quando ela adoecia, ele ficava transtornado. Só se acalmava quando melhorava. Também tinha suas razões. Ela sempre foi um doce de criatura. Mimosa, carinhosa, atenciosa, meiga, delicada. Tudo que um pai gostaria de encontrar numa filha. Comigo ele não precisava se preocupar porque desde os meus cinco anos, no início de 1961, época em que chegamos no Rio de Janeiro, fiquei sob os cuidados da Tia Moema, inclusive morando com ela desde então. Também ajudaram na minha criação a Tia Iracema e a Tia Tui. Estavam sempre juntas. Aliás, faziam tudo juntas. Choravam juntas, riam juntas, brigavam juntas e ficaram juntas até a morte. Não tiveram seus próprios filhos e nos transferiram todo o amor que dedicariam a eles. Foi muito amor, amor até demais, se é possível se amar demais. Exemplos de família unida, mesmo que isto significasse ciúmes, discórdias, opiniões divergentes, se precisasse, como precisou mais tarde, dariam suas vidas pelas outras. Papai por ser o único filho homem, foi sempre paparicado pela mãe e sempre teve mais sua atenção. Parece que já sabia intuitivamente, com antecedência, sua fragilidade emocional. Depois de viverem bem, enquanto meu avo João quis permanecer no seu emprego de caixa na empresa inglesa ...., perderam tudo quando ele foi enganado por sócios inescrupulosos no comércio. Minhas tias superaram esta fase difícil, até ajudaram a fabricar doces caseiros e vende-los, para ajudar no sustento da família, sem maiores complicações. Só passaram a valorizar mais o que conseguiam, tiveram a preocupação de não esbanjar, dividiam com os irmãos o que possuíam, até comer o necessário, comedidamente, não com os olhos. Com papai foi diferente. Não ter mais as roupas sempre novas, os sapatos mais adequados, todo o conforto, enfim, de antes, nem as mesmas amizades, o mesmo convívio social, já que se mudaram de Manaus, para Belém do Pará, quando vovô, revoltado por não ter sido promovido, como esperava, depois de anos de dedicação onde demonstrou sua  capacidade, preterido em favor de um colega mais político do que ele, que usou de manobras para conseguir o cargo, resolveu trocar de ares, de cidade, de estado. Com a indenização e economias tentou abrir negócios próprios, mas o que conseguiu foi ser enganado e passado para trás. Felizmente estava de seu lado uma mulher que o apoiou e o confortou nos momentos mais delicados. Tinham saído de seu Ceará, procurando lugar melhor para viver. Não sei se já se conheciam anteriormente, possivelmente sim, por serem primos. Casaram-se em 23 de novembro de 1906, na cidade amazonense de Itacoatiara, interior do estado. Os filhos nasceram todos em Manaus. Criaram-se em Belém, no Pará, e aos poucos se transferiram para o Rio de Janeiro, exceto Tia Jujú, que foi a primeira a se casar. Sempre procurando um porto seguro, sempre peregrinando, como bons cearenses. Papai conseguira, através de amigos influentes, um trabalho na Prefeitura de Belém, como fiscal de obras. Até estava enamorado de uma amiga da família e tudo levava a crer que ficaria por lá mesmo. Contudo, o amor filial falou mais alto. A vovó pediu que a acompanhasse, para continuar nas barras de sua saia. Aqui no Rio, ficou deslocado, jamais conseguiu se reestruturar. Fez concurso para técnico rural do Ministério da Agricultura e passou. Sucesso provisório. Constantes viagens pelo interior do Brasil, podem te-lo feito feliz, porque amava a natureza. Tanto que anos mais tarde, ao passar pela Linha Vermelha, perto do Fundão, local que quando faz calor exala um cheiro terrível devido aos manguezais, não reclamou do fedor, por ser natural! Papai precisou da ajuda das irmãs a vida toda. Não era independente e não tinha condições psicológicas para conviver com minha mãe, com um temperamento totalmente diferente. Ele era tímido, retraído e desconfiado, cismado com as coisas. Ela muito jovem, com dezoito anos e ele com quase quarenta anos. Para uma pessoa normal esta diferença de idade não causaria problemas, mas papai tinha dificuldades para se relacionar com as pessoas. Enquanto mamãe dançava nos bailes com as amigas, papai ficava conversando com os pais delas, sentado. Foi inevitável o ciúme aparecer e desencadear a doença, que estava só esperando uma brecha para aparecer. Mamãe nunca deu motivos para tanto ciúme e preocupação, mas qualquer atitude expansiva dela o levava a desconfianças infundadas. Quem tiver a oportunidade de conhecer a família da mamãe, vai saber do povo alegre, descontraído e chorão que é. Ela acabou pagando por esta alegria de viver. Dizem meus tios maternos que ela sempre quis sair do interior e viajar. Conseguiu o que queria. Conheceram-se numa estação de trem. Ela estava no vagão e quando seus olhares se cruzaram foi amor a primeira vista. Papai estava em trânsito. Ficou tão apaixonado com aquela jovem tão bonita que esqueceu sua timidez. Voltou várias vezes até conseguir falar com ela, chamar-lhe a atenção. Tenho as cartas de amor e vou apresenta-las mais a frente.Pena que terminou tragicamente. Foi notícia no jornal e no rádio. Mas para mim, ela morreu do coração e foi para o céu. Isto eu não tenho dúvidas. De lá deve estar me ajudando como Deus permite e à Terezinha também. Papai faleceu em minha casa na Ilha do Governador, ao desistir de viver, com quase noventa anos de idade, em 22 de fevereiro de 1996. Oficialmente com 84 anos de idade, pois na carteira de identidade consta ter nascido 30 de setembro de 1911. Sua doença não tinha a mesma força de antes, só falava sozinho, resmungava alguma coisa que não entendíamos, mas não maltratava ninguém. Eu e minha família só tínhamos que ter paciência com as atitudes diferentes dele. Andou mudando de local de moradia periodicamente. Ora perto de mim, ora perto da Terezinha. Levei-o várias vezes para ser internado no Hospital Dr. Eiras, no bairro de Botafogo, dizendo que o estava levando apenas para uma consulta. Isto me doía, mas era necessário. Sofri, mas isto me tornou mais forte e mais tolerante com as pessoas e com os acontecimentos da vida. Todo mundo deveria visitar hospitais, creches, orfanatos, coisas do gênero, para dar valor aos benefícios que recebe de Deus. Quanta gente tem muito menos que nós e não reclamam da vida, não usam isto como desculpa para usar drogas, maltratar os outros e ter inveja. Devemos ter a sabedoria para nos fortalecer com os problemas da vida e não reclamar deles. Devemos usar estas experiências em nosso favor. Em vez de nos prejudicar, na verdade estão nos preparando para suportar sofrimentos maiores.Mamãe nos deixou aos 32 anos, pois nasceu em 27 de dezembro de 1936, na Fazenda Mangá, Itiúba. Foi a segunda filha do primeiro casamento do meu avo Manuel Cesário do Nascimento com minha avó Francelina Ferreira. Ao todo ele teve quarenta filhos com suas três esposas. Quinze morreram anjinhos ainda crianças. Ainda estou procurando conseguir o nome deles, mas está difícil. A cruz que cada um levou no seu túmulo, de chão batido no cemitério rústico de interior, está com a identificação inelegível, e não existem certidões de nascimento ou de óbito, porque nestes lugares afastados, normalmente só são emitidas para requerer algum benefício do INSS. Mas ainda não desisti. A minha esperança é uma lista com os nomes dos filhos que talvez meu avô Manuel tenha feito para comprovar, em festivais de vaqueiros, que era o vaqueiro com maior número de filhos. Numa destas festividades, depois de comprovar o alegado, espero que por escrito, saía apressadamente, quando lhe perguntaram a razão de tanta correria. Respondeu que estava querendo chegar rápido em casa para fazer mais um filho!

ATUALIZAÇÃO: Tia Juracema (Jujú) faleceu no dia 30 de agosto de 2006, em Aracaju/SE. 




quinta-feira, 18 de junho de 2015

História da Família Nascimento Nogueira de Souza
Introdução
Agora são exatamente 6 horas e 20 minutos do dia 21 de novembro de 2004.  Acordei com um desejo muito forte de começar a escrever esta história. Não sei com certeza qual o motivo deste sentimento, porém, acreditando na força ainda desconhecida dos laços que nos unem aos nossos antepassados, conhecimento este obtido  através de experiências espirituais significativas, que oportunamente serão detalhadas, resolvi atender este apelo dos ancestrais, para que no futuro não seja repreendido por eles quando estivermos novamente reunidos.
                        Acredito que todos temos a obrigação e o privilégio de não esquecer de quem nós viemos, porque fazem parte de nós, tanto fisicamente quanto espiritualmente. Quanto à nossa ligação física não pode existir qualquer dúvida já que a ciência tem nos ensinado isto com bastante precisão por meio da medicina e é por meio dela que podemos chegar também à segunda conclusão quando estiver mais desenvolvida neste ponto. Ela já começou a se envolver nesta matéria, de acordo com um médico muito meu amigo, pesquisador que é da medicina tradicional e da medicina alternativa. Este assunto será apresentado no capítulo ...
                        Neste momento estou sentado na cadeira onde meu pai adotivo sentou por muitos anos e escrevendo sobre a mesa que o serviu e o ajudou a escrever tanta coisa importante, que infelizmente está presa em livros ou mensagens ainda não reveladas, aguardando-me para que tenham vida novamente. Estes trabalhos poderiam ser dispensados se esta cadeira e esta mesa pudessem falar. E teriam ajuda substancial de sua estante, cujas prateleiras fazem parte de minha biblioteca. Quanta informação teria de seus sentimentos, de suas experiências, de seu conhecimento! Ele seria outro exemplo do assunto que vai ser tratado nesta obra. Ele foi outro nordestino que deu certo, que sobreviveu às dificuldades da vida do interior do sertão brasileiro, luz que brilhou no seu tempo, que ficou um pouco apagada devido à falta de memória nacional, mas não desapareceu no meu coração. Sua chama ainda está acesa , porque não está esquecido, só espera a ocasião em que envolverá as páginas de sua biografia, já iniciada, mas precisando de mais pesquisa sobre a sua infância. Sem ela, sua história não pode ser contada, porque é a base de tudo o que aconteceu em sua vida. Do mesmo modo, a vida destes dois anjinhos não continuaria, não teria sentido, sem que se contasse sua infância.
                        Todos nós temos uma crença. Acreditamos em algo de nossa escolha ou não, mas acreditamos. Não vou deixar de falar sobre religiosidade porque está dentro de mim. Porém não quero influenciar ninguém, não é este meu objetivo. Vou contar apenas experiências vividas, meu ponto de vista, deixando o leitor livre para concordar ou discordar de minhas opiniões, conforme a consciência de cada um, a sabedoria de cada um. Só afirmo, em sinal de respeito ao leitor, seja parente, amigo ou desconhecido, não importa, que tudo o que for dito é verdade. Se alguém souber de algo que não esteja correto, solicito que se comunique comigo, para que a verdade seja soberana. Estou dizendo isto, porque nem sempre dados familiares estão corretos, por várias razões. A genealogia é muito dinâmica e temos que aproveitar as ocasiões que surgem para faze-la, porque senão a oportunidade desaparece e nem sempre volta a se apresentar. E na ansiedade do momento, pode não ser tão precisa  a coleta de dados. Dados estes que para mim não são simplesmente números, datas, nomes e fatos. São vivos, vem carregados de sentimentos de amor, respeito e admiração.
 Nem sempre estes sentimentos são dispensados a nós, nordestinos. Mais uma razão para escrever esta história. Não faltam exemplos de nordestinos famosos, porém gostaria de homenagear não apenas estes, mas também e principalmente o povo nordestino comum, aquele que sai do seu lar e muitas vezes não consegue voltar devido aos problemas da vida. Que está numa cidade grande, diferente de tudo que conheceu e viveu na infância, e é obrigado a se adaptar para sobreviver. Que precisa de uma força a mais para acreditar em si mesmo, para ter amor próprio novamente. Digo a todos vocês: não estão sozinhos. Permita Deus que minhas palavras consigam trazer ânimo a seus corações partidos pelas desilusões da vida. Se estão lendo é porque já conseguiram alcançar o que muitos querem. Já sabem ler. Contudo, isto é apenas o começo. É preciso saber ler bem, escrever bem, para ter sucesso na vida. Não deixem que outros pensem por vocês. Estudem para que tenham suas próprias decisões, para que saibam o que estão fazendo, para que tenham a liberdade de pensamento! Planejem para o futuro. Não deixem que a vida passe em branco! Se temos alguma coisa hoje, é porque alguém lá atrás fez muito esforço para conseguir deixar para nós uma herança, principalmente aquela que nos deixou um bom nome, boas maneiras e honestidade. Caso ainda não puderam nos dar condições financeiras adequadas, cabe a nós lutar para que deixemos também esta herança aos nossos descendentes, além daquela.
Eu sou um quase anjinho de 48 anos. É quase meio século de vida. Muitos da família nordestina com esta idade estão virando anjinho agora, lá no interior, depois de muito trabalhar na lavoura. A minha vida está começando agora e espero termina-la cultivando minha terra. Estou plantando sementes de trabalho para conseguir esta meta. Pretendo ajudar meus parentes mais pobres quando tiver melhores condições financeiras e puder comprar estar terras e mostrar para eles o que fazer com as deles. O exemplo vale mais do que mil palavras...
O outro quase anjinho é minha irmã. Apesar dos sofrimentos da vida, já conseguiu voltar para o nordeste e tem uma vida tranqüila agora.

Passamos juntos por uma experiência maravilhosa que, tenho certeza, emocionará a todos. Não posso deixar de contar esta história. Seria deixar de mostrar minha gratidão a Deus por esta benção. Seria ingratidão com as pessoas que foram responsáveis por continuarmos vivos. Seria ingratidão com as pessoas que deixariam de crescer sabendo desta história. É um legado que quero passar aos nossos descendentes e aos nossos antepassados, porque todos fazem parte dela.