terça-feira, 25 de agosto de 2015

Ensino Religioso

Carta aberta ao ministro Barroso.


Publicado por William Douglas - agosto de 2015
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Caro Ministro Luis Roberto Barroso
Tenho a honra de ser seu aluno, leitor dos seus livros, fã de sua visão e de sua oratória brilhante. Estou absolutamente convencido de seu desejo de fazer justiça em seu mais alto grau. No momento, tomo a liberdade de escrever esta carta aberta para V. Ex. A, pois estamos diante de um momento extremamente importante para o país, para o constitucionalismo e para a defesa do Estado Laico.
O tema que abordo já foi tratado por mim de forma resumida em matéria (intituladaAula de tolerância) publicada no Jornal O Globo, no dia 25 de junho próximo passado, na página Opinião. Aqui, tomo a liberdade de pontuar as questões com mais vagar.
Estamos às vésperas de definir dois pontos cruciais:
1) o conceito correto de Estado laico;
2) se a interpretação do texto constitucional pelo STF tem o condão de eliminá-lo, ou seja, se a Corte Constitucional pode alterar a Constituição Federal (CF) sem o processo legislativo do art. 60, próprio de uma Carta que é rígida.
V. Ex. A, em artigo intitulado A fé, a razão e outras crençasresumiu a questão:
De um lado, há os que defendem que o ensino religioso possa ser ligado a uma religião específica, sendo ministrado, por exemplo, por um padre, um pastor ou rabino. É o que se chama de ensino religioso confessional. De outro, há os que sustentam que o Estado é laico e que o ensino da religião tem de ser de caráter histórico e plural, com a apresentação de todas as principais doutrinas. Isto é: Não pode ser ligado a um credo específico.
Uma visão mais humanista e plural pode induzir alguém a entender que o chamado “ensino religioso não confessional” seria o melhor caminho a seguir. Quem fizer isso terá escolhido, usando o título do seu artigo, “a razão”, mas estará desprezando nesse assunto a escolha do constituinte, que optou pela “”. Essa decisão também afetará a assistência religiosa do art. VII, da CF.
Sim, Ex. A, este artigo é para dizer que será errado eliminar a fé no ensino religioso, pondo apenas a razão em seu lugar, pois esta é indispensável nas matérias em que é o foco. O verdadeiro Estado Laico pode e deve conviver com a fé.
A solução do “ensino religioso não confessional” é sedutoramente asséptica, mas viola o conceito de ensino religioso que a Constituição, para o bem ou para o mal, acolheu. A religião não é asséptica. Ela fala em céu e inferno, em pecado, culpa, perdão e também em regeneração e novas chances. O assunto salvação e perdiçãonão tem nada de asséptico. Apesar de serem temas difíceis, para alguns desagradáveis, e até mesmo estúpidos para alguns outros, a religião trata a ambos. E a CF, no art. 210§ 1º, ao falar em “ensino religioso”, abriu mão da assepsia.
O “ensino religioso não confessional” é uma engenhosa criação para tirar a religião do ensino religioso. Ensino religioso não confessional pode ser aula de Ética, de Moral e Cívica, de História, de Filosofia... Mas não de Religião. A questão é se os que não gostam da religião têm o direito de negar vigência ao texto constitucional, fazendo uma escolha que, nem mesmo o poder constituinte derivado poderia fazer, em vista da estreita conexão entre o direito fundamental da liberdade de religião, do art. VI, e o art. 210§ 1º, configurando, no caso, uma cláusula pétrea, a teor do inciso IVdo § 4º do art. 60.
Não podemos imaginar que um palmeirense vá ensinar a um corintiano o hino do Corinthians, e isso possa fazer sentido. Muito menos podemos pegar todas as religiões, colocá-las no liquidificador, bater e extrair um suco que, a pretexto de harmonizar, tão somente tira a natureza de cada uma delas.
A audiência pública, mesmo tendo maioria de pessoas querendo o fim do ensino religioso, não pode justificar sua eliminação. Apenas uma emenda constitucional pode fazê-lo.
A hipótese da assistência religiosa revolve a falácia do “ensino religioso não confessional”. Sim, pois se para compatibilizar Estado Laico com religião é preciso criar um ensino unificado, então, por igual razão, teríamos que entender que a assistência religiosa do art. 5º, VII, deve ser feita com “caráter histórico e plural, com a apresentação de todas as principais doutrinas. Isto é: Não pode ser ligado a um credo específico (repito as palavras que V. Ex. A escolheu para explicar a tese não confessional).
CF diz que “é assegurada, nos termos da lei, a prestação de assistência religiosanas entidades civis e militares de internação coletiva”. Se Estado laico é unificar tudo, então quem dará essa assistência religiosa não precisa ter fé. Teremos concurso para capelão sem que este precise ter fé para dar assistência religiosa, ou pode ser que até tenha religião, mas distinta da pessoa que demandar a assistência constitucionalmente assegurada.
Imaginem a cena: um militar ou um preso, em situação de internação coletiva, pede a assistência religiosa prevista no art. VII, da CF. Se for adotada a visão de que o ensino religioso deve ser “não confessional”, a mesma visão pode pretender que a assistência religiosa seja “não confessional” também. E isto revela o grande erro de se querer usar a “laicidade” para eliminar a religião que a CF, para bem ou para mal, agradando ou não, acolheu.
Imagine, V. Ex. A, mandar um capelão ateu para ajudá-lo em seus momentos mais difíceis. Pedindo uma oração, o capelão que o assiste informa que Deus não existe. Isso vai ajudar muito a cumprir a CF? Imagine um devoto de Maria ou de qualquer dos respeitáveis santos católicos querendo rezar o terço junto com um capelão evangélico. Ou, então, um umbandista sendo assistido por um muçulmano. Outra cena curiosa seria um interno evangélico, que não acredita em reencarnação, sendo consolado por um capelão espírita que lhe falará sobre seu carma. Não é preciso ir muito longe para ver o absurdo da tese de que “religião” pode ser reduzida a noções gerais de História, Ética etc. São matérias distintas.
Quer boa parte dos brasileiros goste ou não, a assistência religiosa está prevista no art.  da CF e a tese paradoxal do “ensino religioso não confessional” é revelada quando se percebe que o próximo passo humanista é, ao invés de mudar a CF, postular a “assistência religiosa não confessional”.
PRIMEIRO PONTO – O CONCEITO DE ESTADO LAICO
O Brasil ainda não sabe o que é, na verdade, um Estado Laico. Tenho esperança de que v. Decisão finalmente ilumine o tema. Não para V. Ex. A, que bem o sabe, mas para os demais leitores desta carta aberta, anoto que temos dois tipos de Estado:
A – Laico, onde todas as manifestações religiosas, incluindo o ateísmo, o ceticismo e o agnosticismo são respeitadas, sem que o Estado privilegie nenhuma religião nem dificulte seu exercício (vide art. 19, CF).
B – Confessional, onde um modo de ver a religião é acolhido em detrimento dos demais. Aqui, temos Estados confessionais católicos, islâmicos, protestantes ou ateus, entre outros.
Há um esforço de alguns não religiosos, ou humanistas, ou agnósticos ou ateus, de excluir do espaço público as manifestações da fé. Há uma propaganda equivocada que diz que no Estado Laico a fé deve ser reduzida à esfera privada. Ocorre que isso não é Estado laico, mas Estado confessional ateu.
Não é preciso dizer em quantos lugares a Constituição faz menção ao sentimento, à liberdade e à expressão religiosa, sendo esta última, como todos sabemos, parte do rol dos direitos humanos. A tolerância que todos desejamos não se realiza com a exclusão do fenômeno religioso, mas sim com a convivência harmônica e respeitosa entre todos os caminhos que esses sentimentos ou visões podem proporcionar.
V. Ex. A disse, com toda razão, que “a verdade não tem dono, e o papel do Estado é assegurar que cada um possa viver a sua convicção, sem a exclusão do outro”. O problema é que o desejo de impedir as manifestações da fé no espaço público é justamente isso: a exclusão do outro. As pessoas não deveriam se ofender porque alguém tem sua fé e a expressa no espaço público. Se alguém é, por exemplo, ateu ou humanista, basta que fale para seus filhos não irem à aula de religião; se quiserem, podem orientar seus filhos a assistirem um pouco das aulas oferecidas, sendo melhor do que ouvir religião de alguém que pode não ter nenhuma, como querem os que desaprovam o ensino religioso.
O não proselitismo que tanto se quer é assegurado pela presença facultativa na aula. Da mesma forma que poderá recomendar que o filho não assista a aula nenhuma, um pai poderá sugerir que o filho assista a um pouco de cada. Em qualquer caso, os que professam religião ou desejam participar de aulas sobre as mesmas devem ter respeitado o direito constitucionalmente assegurado a isso.
Quanto à tese de que o Estado deve abster-se de sustentar ou patrocinar qualquer fenômeno religioso (art. 19CF), quem pensa assim deve promover proposta de emenda constitucional, a qual, por sinal, também pode eliminar os benefícios tributários das igrejas (art. 150VIbCF). Até que essa emenda passe, o Estado deve arcar com todas as despesas que cumpram os dispositivos constitucionais em vigor, mesmo que antipáticos para uns ou outros.
Vivemos um contínuo ataque ao Estado Laico. Por exemplo, um grupo de ateus pretendeu impedir cultos religiosos cristãos em órgãos públicos e em universidades. Isto é equivocado. O que este grupo deveria fazer é pedir que o mesmo espaço também fosse disponibilizado para reuniões humanistas. Em outro caso, um cidadão quis impedir que uma placa religiosa estivesse na entrada de sua cidade. Ocorre que se o Lions e o Rotary colocam suas placas sem que isso cause estridência, os religiosos devem ter a mesma oportunidade. O desejo de retirar os crucifixos do espaço público, já rechaçados pela Corte Europeia de Direitos Humanos, é outro ponto. Imaginemos retirar o Cristo Redentor do Corcovado, assim como as centenas de outros monumentos semelhantes país afora? Iremos eliminar também os feriados religiosos e os nomes de rios, ruas, cidades e Estados? Santa Catarina, São Paulo, Espírito Santo e a Bahia de Todos os Santos devem ter seus nomes mudados?
Não esqueçamos quantas obras sociais dos religiosos dos mais variados matizes contribuem para a sociedade. Hospitais, orfanatos, escolas, casas de recuperação de viciados e de acolhimento a mendigos, entre outras instituições, existem entre católicos, espíritas, evangélicos, judeus etc. Como já foi dito por John Rawls, com eco em Barack Obama, o Estado não deve desperdiçar a energia religiosa quando esta contribui para a coletividade (RAWLS, John. O liberalismo político. Trad. João Sedas Nunes. Lisboa: Editorial Presença, 1997. Pp. 212-218).
A solução constitucional é a do Estado Laico. Nesse passo, merece citação que do Dique do Tororó, próximo ao Estádio da Fonte Nova, em Salvador, podem ser vistas oito imagens de Orixás, esculpidas por Tati Moreno. Assim, em um mesmo país podem e devem conviver os crucifixos com a imagem de Jesus, tipicamente católicos, as imagens dos Orixás e os iconoclastas evangélicos. Um precisa aprender a respeitar o outro. Evangélicos não podem chutar a imagem da Santa, nem invadir terreiros de umbanda, e assim por diante. Ateus e humanistas devem respeitar o sentimento e os símbolos religiosos, como preconiza o Código Penal. Há que haver paciência e tolerância com a diversidade. Nesse passo, o crucifixo, que a Corte Europeia menciona como símbolo da paz, é usado por cristãos e travestis para simbolizar a busca por Justiça e os riscos dos erros de julgamento.
A tentativa de impedir a menção a Deus ou a qualquer forma de religião ou culto tem sido recorrente, havendo quem queira impedir até que existam bancadas religiosas no Parlamento. Veja o absurdo: as pessoas podem votar por qualquer motivo, por ser o candidato comunista, ruralista, vascaíno, artista ou até palhaço, mas querem impedir que alguém vote porque o candidato comunga com sua fé e, logo, com um conjunto de valores que o eleitor quer prestigiar. Não podemos esquecer que, exercendo o direito constitucional que lhes assiste, o ateísmo não é uma opção neutra, mas uma dentre as várias opções religiosas. Daí, atender ao postulado humanista de degredar a fé do espaço público é tornar o Brasil não um estado laico, mas confessional.
A solução laica é a convivência, não o banimento.
Nesse passo, eu, protestante e, por formação, avesso às imagens esculpidas, vejo a imagem de Nossa Senhora na mesa de minha diretora de secretaria e um Buda na mesa de outra servidora, e nem por isso me sinto ofendido. Ao contrário de sufragar a ditadura dos ofendidos, saúdo os católicos, os budistas e os ateus, a liberdade de culto e de religião, a formação histórica desse país e, mais do que tudo, o fato de viver num Estado laico, onde não sou obrigado a me curvar perante as imagens; mas jamais seria honesto (ou laico, ou cristão, ou jurídico) se me incomodasse com o fato de elas estarem ali.
O ensino religioso só será religioso se for ministrado por quem tem fé. A fé é a marca da religião. O que distingue o fenômeno religioso do intelectual é justamente o que os judeus chamam de Shekinah, a presença de Deus. Ouço umbandistas, católicos, evangélicos, espíritas etc. Descreverem esse sentimento. Isso é religião e é esse sentimento que faz as pessoas se doarem ao próximo e mudarem de vida, serem honestos ou abandonarem os vícios. É essa possibilidade, que repercute na solidariedade e na ética, que se quer prestigiar. E, com todo respeito, a Filosofia e a História são maravilhosas, mas não trazem isso em seu DNA. Tirar o elemento da fé do ensino religioso é o mesmo que acabar com a norma. Como V. Ex. A mesmo afirmou, a religião vive da “verdade revelada”, de modo que tirar a crença na revelação daquele que ensina a religião é o mesmo que tornar a religião sem graça alguma. Uma aula de religião proferida por alguém que não tem o ânimo do espírito e da revelação divina é, no final das contas, uma aula de ateísmo.
O Estado deve providenciar o cumprimento da Constituição e garantir que as minorias tenham suas aulas também. Nesse passo, teremos aulas católicas, evangélicas, espíritas, de matriz africana, budistas, muçulmanas etc., na medida em que houver número razoável de seguidores e de acordo com o princípio da realidade e o bom senso. Não se espera que um isolado seguidor da Igreja da Maconha, recentemente legalizada nos Estados Unidos, queira um professor exclusivo para si, mas que isso não impeça que a imensa massa de cidadãos de outras linhas religiosas tenha seus direitos respeitados, ou seja, ensino religioso que seja religioso, e não mera aula de História ou Ética, matérias importantes, que devem ter seu espaço adequado no currículo escolar.
SEGUNDO PONTO – DA TENTATIVA DE ELIMINAR O ENSINO RELIGIOSO PELA VIA INADEQUADA
A interpretação não pode ter o condão de produzir norma que elimine texto constitucional expresso. E é exatamente eliminar o texto o desejo de muitos. E, por mais numerosos que sejam os descontentes com a CF, cabe ao STF preservar sua higidez.
A Subprocuradora-geral da República Deborah Duprat, em matéria publicada na Folha de S. Paulo, deixa clara sua predileção. Indagada sobre se “defenderia o fim do ensino religioso”, respondeu:
Eu defenderia como militante. Como operadora do Direito, não posso.
Ou seja, está claro o seu modo de ser e pensar: é militante e deseja o fim do ensino religioso. Impedida pelo texto constitucional de obter o seu fim (o banimento do ensino religioso), elege uma tese que torna o ensino religioso um ser amorfo e inócuo. A mesma matéria confirma que a ilustre subprocuradora deseja que os professores de religião sejam “recrutados mediante concurso público, sujeitos a plano de carreira, e não recrutados em ambiente religioso”.
Querer que qualquer pessoa, tenha fé ou não, ensine sobre a fé significa matar a fé. Tirar o ensino religioso das escolas significa introduzir uma linha específica: a desconstrução da fé e o banimento da expressão religiosa do ambiente público, postulado, repito, do Estado confessional ateu. Mais que isto, tira do espaço público a diversidade que nos caracteriza como raça humana e também como nação brasileira. Tudo isso em nome de um conceito totalmente equivocado de Estado laico, construído para lograr os objetivos do Estado ateu: eliminar a fé do espaço público.
É óbvio que deve haver um concurso público, mas não se pode eliminar a chancela religiosa. O concurso cuidará das habilidades não religiosas (Didática, Português etc.), mas não pode o Estado querer dizer quem está apto a ensinar religião. O Estado não entende de religião e quando tenta disciplinar a fé as consequências são péssimas. O que o Estado tem que fazer é respeitar as diversas religiões. Desprezar o requisito lógico da fé resultará em colocar para dar aula de Religião um não religioso. Existem cargos suficientes nas cadeiras de Filosofia e História que possam acolher os excelentes professores não religiosos que temos no país. O que não faz sentido é que alguém que não tem fé ensine sobre ela. Repito: será como colocar vascaínos para ensinarem o Hino do Flamengo.
O Conselho Nacional de Educação (CNE), como se vê em matéria da Folha de S. Paulo, ao invés de aplicar a CF, prefere que o ensino religioso seja banido da grade curricular de alunos do ensino fundamental público. Como essas aulas estão previstas na própria Constituição, elas devem, então, ter caráter não confessional, sem priorizar uma ou outra religião.
Luiz Roberto Alves, Conselheiro do CNE diz, na mesma matéria, e usando todas as letras, o seguinte:
Espera-se, pois, que chegue logo o dia em que a LDB [Lei de Diretrizes e Bases} será escoimada [libertada] do componente escolar ensino religioso.
É evidente que o objetivo é ESCOIMAR o ensino religioso. O CNE deveria cumprir aCF, mas, movido por opiniões ideológicas, prefere eliminar o ensino religioso. Não podendo fazer isso por emenda constitucional, abraçou a tese do ensino religioso não confessional, que é o mesmo que eliminar o ensino religioso.
Ainda na mesma matéria, cita-se o Professor Virgílio Afonso da Silva, da USP, que diz:
O Estado tem que tomar as rédeas desse processo. O ensino religioso está em situação de tensão – e não de harmonia – com o Estado laico.
O Estado não pode esquecer que o titular do Poder Constituinte determinou que houvesse ensino religioso. O Estado tomar as rédeas do ensino religioso é que viola o Estado laico. Voltando ao conceito de laicidade: a harmonia não decorre da unificação do pensamento (que é impossível em uma sociedade plural como a nossa), mas da convivência harmônica entre as diversas correntes de pensamento religioso (assim como político etc.). As diferenças religiosas e políticas geram tensão sim, mas a harmonia decorre da coexistência, não da fixação de uma visão única. Até porque essa visão única seria necessariamente a escolha do Estado confessional ateu, que deseja excluir as religiões do espaço público.
Eis a posição do Instituto dos Advogados Brasileiros:
A posição assumida pelo IAB é a de que o STF interprete o decreto à luz daConstituição Federal e da Lei de Diretrizes e Bases da Educacao Nacional (LDB). Em seu art. 33, a LDB estabeleceu que "o ensino religioso, de matrícula facultativa, é parte integrante da formação básica do cidadão e constitui disciplina dos horários normais das escolas públicas de ensino fundamental, assegurado o respeito à diversidade cultural religiosa do Brasil e vedadas quaisquer formas de proselitismo". Para o IAB, a única forma de compatibilizar o caráter laico do Estado brasileiro com o ensino religioso nas escolas públicas consiste na adoção de modelo não confessional. A disciplina deve ter como conteúdo programático a exposição das doutrinas, práticas, história e dimensões sociais das diferentes religiões, incluindo posições não religiosas, sem qualquer tomada de partido por parte dos educadores.
Esta posição, mais uma vez, não trata a laicidade em seu conceito adequado, como já expus. Mais que isso, pretende que os professores não tomem partido de qualquer linha. Ocorre que não tomar partido de qualquer linha já é adotar uma linha! Repito: se a laicidade for interpretada assim, a assistência religiosa prevista no art. VII, daCF será tudo, menos religiosa. Afinal, é da natureza da religião ter uma visão específica e individualizada da vida. Repisando, a vedação do proselitismo, que não é texto da CF, mas apenas do art. 33 da LDB, é assegurada pelo caráter facultativo das aulas.
Eu sou cristão protestante. A CF assegura ensino religioso. Se a aula de “religião” for dada sem definição de credo eu não vou querer que meu filho a assista, e explico a razão. Tenho todo o respeito pelos católicos e seus santos, pelos espíritas, pela umbanda e pelos ateus. Porém, se qualquer professor for dar a aula de religião, é enorme a possibilidade de (aí sim!) haver proselitismo. Provavelmente um professor ateu vai dizer para meu filho que existem muitos deuses e que nenhum é seguro; um professor espírita vai falar em reencarnação, um professor budista falará que o único deus que existe é o nosso interior, e assim por diante. De fato, seria mais simples que a CF não falasse em ensino religioso, mas ela fala, e se fala há que haver respeito aos credos.
O IAB chega ao cúmulo de defender que sejam expostas as “posições não religiosas”. Isso é ignorar o texto da CF. Por mais que isso possa desagradar a não religiosos, o ensino “religioso” é que tem sede constitucional. O ensino “não religioso” é respeitável, protegido pela laicidade, mas não está previsto como obrigatório. Será que o STF tem o poder de reescrever a CF para agradar aos não religiosos? Não é a emenda o caminho correto para isso? Seria legítimo substituir o quórum exigido para uma emenda por seis votos no STF?
Volto a citar V. Ex. A:
Há três grandes valores em questão. O primeiro é a liberdade de religião, a possibilidade legítima de se professar uma crença e pretender conquistar adeptos para ela. O segundo é o dever de neutralidade do Estado, que deve se abster de promover qualquer religião, bem como de dificultar o seu exercício. O terceiro valor envolve o papel da religião na educação e no espaço público, no âmbito de um Estado democrático e de uma sociedade multicultural.
Concluindo, a neutralidade do Estado não significa simplesmente “se abster de promover qualquer religião”, pois quando concede benefícios tributários está fazendo exatamente isso. A neutralidade se revela em não se dar a uma visão religiosa precedência sobre as demais. Nesse sentido, querer unificar o ensino da religião e permiti-lo a quem não a professa equivale a tirar a alma da religião e o multiculturalismo da sociedade. Só seremos multiculturais se aprendermos a lidar com várias confissões.
É certo que o caminho eleito pelo constituinte traz diversos desafios ao administrador público. Igualmente, preferia que cada religião cuidasse do seu ensino. Todavia, outras escolhas do constituinte, como o concurso público e as licitações, também são de difícil implementação. A questão é que não podemos, por não simpatizar, ou não ser fácil sua materialização, desprezar o texto constitucional.
Enfim, os concursos devem ser feitos, os cuidados com o material didático, tomados, a preocupação com o espaço para as minorias religiosas, redobrada, o que não se pode fazer é tirar a fé do ensino religioso, nem o ensino religioso da Constituição.
Com a admiração do seu aluno e leitor,
William Douglas, juiz federal/RJ, professor e escritor.

Candidato de pele branca e olhos verdes volta a ser aprovado por cotas em concurso do Itamaraty

Mathias Abramovic, que causou polêmica em 2013 ao se declarar negro no concurso, passou na primeira fase


Publicado por Frederico Fernandes 
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Candidato de pele branca e olhos verdes volta a ser aprovado por cotas em concurso do ItamaratyNo auge da polêmica por ser aprovado por cota racial na primeira fase do concurso do Itamaraty, Mathias Abramovic, o candidato de pelé branca e olhos verdes, concedeu uma entrevista ao GLOBO em 2013. Perguntado se insistiria na estratégia caso não passasse, ele respondeu: “por enquanto, não tenho previsão de desistência”. Quase dois anos depois, seu nome está novamente entre os candidatos que se declararam pretos ou pardos aprovados na primeira fase do mesmo concurso. Os dados foram divulgados nesta segunda-feira, no Diário Oficial da União.
O resultado final na primeira fase e convocação para a segunda fase traz os 60 primeiros candidatos que se declararam pretos ou pardos e mostra a nota obtida pelo participante. Abramovic tirou 46,5, ou seja, 0,5 ponto abaixo da nota de corte na ampla concorrência. O GLOBO entrou em contato com a família do rapaz, mas não obteve resposta.
Desde 2011, quando o Itamaraty instituiu cotas para afrodescendentes como benefício na primeira fase do concurso, Abramovic opta pela autodeclaração. Na edição de 2013, ele passou nas duas primeiras fases do concurso. Na ocasião, a política de cotas era válida apenas para a primeira fase, na qual somente as 100 maiores notas eram classificadas para a segunda etapa. Esta é a primeira edição cuja reserva será adotada em todas as fases do concurso, em função da lei de 2014 que prevê cota de 20% das vagas em concursos públicos federais a candidatos autodeclarados negros ou pardos.
O processo seletivo deste ano oferece 30 vagas, sendo seis para negros e pardos. Ao todo, são 5.271 candidatos na ampla concorrência e 671 para as vagas de afrodescendentes. Também há 61 vagas reservadas a portadores de deficiência. O resultado final deve ser divulgado em dezembro, ao fim de quatro etapas. O salário inicial é de R$ 15.005,26.
Abramovic é morador da Zona Sul do Rio e ex-aluno do Colégio Santo Agostinho do Leblon, um dos mais tradicionais do Rio. Ele também é formado em Medicina pela Uerj em 2003. Na entrevista ao GLOBO, ele afirmou que se enquadrava na política de cotas no aspecto legal e moral, justificando que na árvore genealógica de sua família havia avós e bisavó negros.
- Desde bem pequeno, minha família, minha mãe, meu pai sempre frisaram nossa origem multiétnica. Minha mãe, especificamente, sempre falava que a gente tem negro, índio... Ela mesma é nordestina, vinda do interior do Piauí. Veio para caquando criança com o resto da família. Meu pai também tem origens variadas. Uma bisavó por parte do meu pai é negra. Por parte da minha mãe, tenho avós pardos - disse. - Meu sobrenome não deixa esconder que tem uma origem judaica também. Então, eu sou de repente uma concentração de minorias. Negro com ascendência negra, indígena, nordestina e judaica.
Na mesma época, sua mãe, Odalia de Souza Lima Abramovic, se pronunciou por meio de e-mail. Ela disse que é nordestinda de Teresina, no Piauí, e descreveu a genealogia de sua família.
ONG VAI ACIONAR PROCURADORIA
O diretor da ONG Educafro, Frei David Santos, acompanha a situação desde 2013 e disse que hoje mesmo a entidade vai pedir uma audiência com a procuradora da República, Ana Carolina Alves Araújo Roman, que aceitou a representação da comunidade negra sobre a falta de critério do Itamaraty em sua política de cotas.
- Vou fazer essa audiência de qualquer jeito. Se o Itamaraty não aceita ter como postura um serviço público responsável e insiste em deixar que qualquer branco passe por cotas, vamos ter que abrir um processo por improbidade administrativa - disse.
Ele lembra que o Superior Tribunal Federal já garantiu que é plenamente constitucional a autodeclaração seguida de comissão para averiguar a autenticidade do que foi informado.
- Sabemos que o direito administrativo do Itamaraty tem conferido de maneira radical documentos, como certificados de conclusão de curso, para barrar qualquer fraude. Por que esse mesmo direito administrativo é relapso quando o direito constitucional fala que tem que ser colocada em prática a autodeclaração seguida de averiguação? - questiona. - E se administração pública deixa um branco de olhos verdes assumir o cargo de embaixador dessa forma, está corroendo a ética na sociedade brasileira.
Por meio de sua assessoria de imprensa, o Itamaraty informou que o concurso não tem como desobedecer a lei que define a autodeclaração como critério de inscrição às vagas reservadas.

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Sou bisneto de português: quais são as minhas possibilidades de obtenção da nacionalidade portuguesa?


Publicado por Rui da Fonseca e Castro 
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Possibilidades dos bisnetos de portugueses de obter a nacionalidade portuguesa

A experiência demonstra que uma significativa parcela de pessoas interessadas em obter a nacionalidade portuguesa corresponde a bisnetos de portugueses. Trata-se de uma geração jovem que tem pretensões de estabelecer residência no exterior, seja para estudar, seja para trabalhar, mas cujas gerações anteriores, imigrantes, sobretudo no Brasil, não se interessaram ou não tiveram condições para dar continuidade ao vínculo da cidadania portuguesa.
Essas pessoas ficam significativamente dependentes da existência de um ascendente vivo, em linha reta, posterior ao bisavô português falecido, através do qual lhes seja possível obter a nacionalidade portuguesa. Mas, mesmo com algum ascendente vivo, a situação pode ser complicada e sujeita a várias condicionantes. Por sua vez, o Projeto de Lei n.º 382/XII virá previsivelmente introduzir algumas variáveis no regime relativo aos netos, o que igualmente é levado em consideração na esquematização que apresentamos infra.
A realidade, não raramente, sobrepõe-se às construções hipotéticas, mas tentemos então perceber, em abstrato, cada uma das situações que poderão surgir.

Bisavô português falecido, avô brasileiro falecido, pai brasileiro falecido

Esta situação comporta uma dupla interrupção consecutiva da cadeia geracional, ficando as possibilidades do interessado reduzidas à naturalização prevista no artigo 6.º, n.º 6, da Lei da Nacionalidade, ou seja, por ser descendente de português, ou à naturalização prevista no artigo 6.º, n.º 7, da Lei da Nacionalidade, ou seja, por ser descendente de judeu sefardita português.

Bisavô português falecido, avô brasileiro falecido, pai brasileiro vivo

Tendo em conta a previsível transformação em lei do Projeto de Lei n.º 382/XII, e a respectiva entrada em vigor, o interessado terá a possibilidade de obter a nacionalidade portuguesa originária se o seu pai também obtiver previamente a nacionalidade originária, por ser neto de português. Para o pai conseguir obter a nacionalidade originária com fundamento em ser neto, deverá, todavia, preencher o critério da ligação efetiva, na sua modalidade menos exigente.

Bisavô português falecido, avô brasileiro vivo, pai brasileiro falecido

Se o avô obtiver primeiro a nacionalidade portuguesa originária, por ser filho de português, o interessado, ao abrigo do regime atualmente em vigor, tem direito à aquisição da nacionalidade portuguesa, por naturalização, por ser neto de português, ao abrigo do disposto no artigo 6.º, n.º 4, da Lei da Nacionalidade.
Se o Projeto de Lei n.º 382/XII for transformado em lei, e após a sua entrada em vigor, os netos passarão a ter direito à nacionalidade originária, sendo eliminada a possibilidade de naturalização, mas terão que comprovar uma ligação efetiva com Portugal.
Estamos, portanto, num período de transição muito significativo do regime relativo aos netos de portugueses nascidos no estrangeiro.

Bisavô português vivo, avô brasileiro falecido, pai brasileiro falecido

Trata-se do cenário mais improvável, não sendo, todavia, muito relevante que o bisavô se encontre vivo, pois existem, de qualquer forma, duas interrupções consecutivas da cadeia geracional. Nesta situação, tal como na primeira, as possibilidades do interessado ficam reduzidas à naturalização prevista no artigo 6.º, n.º 6, da Lei da Nacionalidade, ou seja, por ser descente de português, ou à naturalização prevista no artigo 6.º, n.º 7, da Lei da Nacionalidade, ou seja, por ser descendente de judeu sefardita português.

Atenção

Conforme supra mencionado, os cenários aqui apresentados constituem abstrações, não dispensando a análise do caso concreto, o qual poderá apresentar diversos fatores que têm que ser necessariamente apreciados casuisticamente.
Importa finalmente referir que as possibilidades conferidas pelos n.ºs 6 e 7 do artigo 6.º da Lei da Nacionalidade são particularmente complexas no que tange à verificação de cada um dos requisitos, inserindo-se, para além disso, no âmbito do poder de discricionariedade técnica do Governo português, o qual exige, invariavelmente, a verificação do requisito da ligação efetiva com a comunidade portuguesa, na sua modalidade mais exigente.
Sou bisneto de portugus quais so as minhas possibilidades de obteno da nacionalidade portuguesa

domingo, 2 de agosto de 2015

UMA MANIFESTAÇÃO CELESTIAL
TRABALHOS DO SACERDÓCIO NO MUNDO DOS ESPÍRITOS

É com um espírito bem humilde e grato, que vou tentar relatar nesta ocasião, a pedido, uma experiência pessoal, a qual é muito sagrada para mim. Necessito ser breve. Além disso, há alguns assuntos que me foram dados a conhecer, e que não sinto liberdade de relatar aqui.
Deixem-me dizer, a guisa de prefácio, que entre às 24:00 h e 7:30 h da manhã do dia 20 de janeiro de 1920, enquanto eu estava sozinho num quarto da casa de meu amigo, W.F. Raeson, em Carey, Idaho, esta gloriosa manifestação foi concedida a mim.
Eu não estive consciente de nada do que me ocorreu durante as horas mencionadas, exceto o que experimentei. Eu não me virei na cama e nem fui perturbado por nenhum barulho. Se foi um sonho, uma aparição, uma visão ou uma peregrinação de meu espírito ao mundo dos espíritos eu não o sei, e não me importa.
Eu sei é que realmente vi e experimentei as coisas relatadas nessa manifestação celestial e elas são reais para mim, tanto quanto qualquer experiência de minha vida. Para mim, pelo menos, isso é suficiente.
De todas as Doutrinas e práticas da Igreja, o trabalho vicário pelos mortos, tem sido o mais difícil para eu compreender e aceitar totalmente. Eu considero esta visão, como uma resposta do Senhor à oração de minha alma, nisso e outras dúvidas que eu tinha.
Eu passei por um curto espaço de tempo, de meu corpo, por uma membrana, ao mundo dos espíritos. Isto foi a minha primeira experiência depois de dormir. Eu parecia reconhecer que tinha passado pela mudança chamada MORTE e referi-me a ela em minha conversação com os seres imortais com quem imediatamente fiz contato; também observei o desagrado deles com o nosso uso da palavra MORTE e o medo que temos dela.
Eles usam ali uma outra palavra para referir-se à transição da mortalidade para o mundo dos espíritos, palavra esta, que não me recordo, mas que me posso aproximar do significado, conforme a impressão que deixou em minha mente: "O NOVO NASCIMENTO".
Minha primeira impressão visual foi a proximidade do mundo dos espíritos ao nosso mundo da mortalidade. A grandeza dessa esfera celestial foi desconcertante aos olhos deste espírito noviço. Muitos lá gozavam visão irrestrita e ação desimpedida. A vegetação e paisagem eram belas, além de qualquer descrição. Não era tudo verde lá como aqui, mas áureo, com tonalidades variadas de cor-de-rosa, cor-de-laranja e cor-de-alfazema, como o arco-íris.
Uma calma doce permanecia em todo o lugar. As pessoas que encontrei, eu não os vi como espíritos, mas como homens e mulheres, indivíduos pensativos e ativos, tratando de negócios importantes de uma maneira muito eficiente. Havia perfeita ordem ali e todo o mundo tinha alguma coisa para fazer e pareciam estar tratando de seus afazeres.
A crença de que os habitantes do mundo espiritual são classificados de acordo com suas vidas de pureza e a sua observância à vontade do PAI, foi subsequentemente sentida por mim.
Particularmente, observei que os iníquos e os impenitentes são confinados a um certo distrito, isolados, com marcações definidas entre um e outro mundo (iníquos e justos), definitivamente determinadas e intransponíveis, tanto quanto a linha de divisão que existe entre o nosso mundo físico e o mundo espiritual; é apenas uma membrana, mas intransponível; até que a própria pessoa, por si mesma tenha mudado (para poder passar por ela).
Esse mundo dos espíritos é o grande lar temporário de todos os espíritos aguardando a ressurreição dos mortos e o julgamento. Havia muita atividade dentro e entre as diferentes esferas. Vi professores designados, indo de esferas mais altas, para esferas mais baixas, a fim de cumprir com seus compromissos missionários. Eu tive grande desejo de encontrar certos parentes meus já falecidos e certos amigos também, mas fiquei imediatamente impressionado com o fato, de que tinha entrado num mundo tremendamente grande e extenso, muito maior mesmo do que a nossa terra, e mais numerosamente habitado.
Eu só podia estar em um lugar ao mesmo tempo, não podia fazer mais do que uma coisa ao mesmo tempo; assim como, só podia ver em uma única direção ao mesmo tempo. Portanto, compreendi que requereria muitos e muitos anos para achar e conversar com todo o mundo que conhecia e aqueles com quem eu desejava encontrar, e que não haviam sido chamados para me receber naquele momento.
Todos os homens e mulheres dignos estavam designados para fazer serviços especiais e regulares, sob um plano de ação bem organizado, dirigido principalmente para pregar o Evangelho do PAI aos não convertidos, ensinando àqueles que procuram conhecimento, assim estabelecendo relacionamentos familiares, juntando genealogias familiares para o uso e benefício de sobreviventes mortais de suas respectivas famílias, para que o trabalho de batismo e as ordenanças seladoras possam ser realizadas para os falecidos, nos templos de DEUS na terra.
Os representantes autorizados das famílias no mundo espiritual, têm acesso aos nossos registros no templo e são avisados totalmente do trabalho feito ali, porém o trabalho vicário feito no templo, não se torna automaticamente válido no mundo espiritual; pois o recebedor desse trabalho deve primeiro: crer, arrepender-se, aceitar o batismo e receber a confirmação. A partir daí então, certas ordenanças são realizadas, efetivando essas ordenanças salvadoras que realizamos na terra, nas vidas desses seres regenerados.
Então, a grande obra está se realizando - eles fazendo um trabalho lá que não podemos fazer aqui, e nós fazendo um trabalho aqui, que eles não podem fazer lá - ambos necessários, sendo um o complemento do outro; e assim proporcionando a salvação de todos os filhos de DEUS que virão a ser exaltados.
Fiquei surpreso ao notar que não haviam bebês nos braços das mães. Eu encontrei o filho infantil de Orson W. Rawlins, meu primeiro conselheiro e imediatamente reconheci-o como o bebê que morreu uns anos atrás, mas ele parecia possuir inteligência e, em certos aspectos, aparência de um adulto e estava empenhado em tratar dos negócios de sua família e com sua genealogia. Fiquei muito contente em saber que as mães novamente receberão em seus braços, os seus filhos que morreram em sua infância e estarão completamente satisfeitas; mas o fato permanece - que ao entrarem no mundo dos espíritos eles são adultos, porém, há maior oportunidade de desenvolvimento, os bebês são espíritos adultos em corpos infantis.
Vi também, uma grande multidão de homens, a maior que já vi juntos em um só lugar; imediatamente reconheci-os como soldados, os milhões que foram massacrados e lançados tão rapidamente ao mundo dos espíritos durante a primeira guerra mundial. Entre eles estava calmamente e majestosamente um grande general, como comandante supremo daqueles soldados. Quando eu me aproximei, recebi um sorriso bondoso e uma generosa saudação daquele grande e amoroso homem chamado Richard W. Young.
Daí veio uma convicção absoluta em minha alma, que de todos os homens vivos ou mortos, não houve nenhum que fosse tão perfeitamente escolhido para a grande missão que ele exercia ali. Ele recebia a atenção e o respeito de todos os soldados. É um grande general e um grande Sumo Sacerdote de Deus. Nenhum outro trabalho, pelo qual ele podia ter sido chamado, pode ser comparado com o atual em importância e extensão.
Andando mais à frente, por um tempo considerável, vi pessoas, algumas que eu já conhecia e muitos milhões que não conhecia. Aproximei-me de um pequeno grupo de homens, em pé em um caminho cercado de prados espaçosos e flores, gramados e matagal ornamental, tudo comum a tonalidade áurea cercando o caminho, que ia para um lindo edifício. O grupo estava empenhado em uma intensa conversação.
Um daqueles homens deixou-os e veio vindo em minha direção pelo caminho. Reconheci-o imediatamente, era o meu estimado Presidente Joseph F. Smith. Ele me abraçou como um pai abraçaria o seu próprio filho e depois de algumas palavras de saudações, rapidamente declarou: "Você não veio para ficar"; declaração esta que compreendi ser mais como uma afirmação do que uma interrogação. Pela primeira vez conscientizei-me de minha missão incompleta na terra e, apesar de sentir que eu gostaria de ter ficado lá, imediatamente perguntei ao Presidente Smith se eu poderia voltar à terra, ele disse-me: "Você expressou um desejo reto", então ele replicou: "Eu apresentarei o assunto às autoridades e informo-lhe mais tarde".
Em seguida, nos viramos e ele conduziu-me para aquele grupo pequeno de homens, de onde tinha saldo. Imediatamente, reconheci o Presidente Brigham Young e o Profeta Joseph Smith. Fiquei surpreso em achar o Presidente Young um homem mais baixo e forte do que eu tinha imaginado em minha mente. Do outro lado, vi o Profeta Joseph Smith mais alto do que eu esperava. Ambos possuíam uma calma e uma majestade santa. Eles foram bondosos e cavalheiros para comigo. O Presidente Smith apresentou-me aos outros. Em seguida, voltamos pelo mesmo caminho; o Presidente Smith ainda apresentou-me a outras pessoas; e daí partiu dizendo que me veria novamente.
Foi-me permitido avistar esta terra e tudo o que estava ocorrendo sobre ela. Não houve limites em minha visão e fiquei espantado com isto. Vi minha esposa e meus filhos em casa. Vi o Presidente Heber J. Grant como o cabeça desta grande Igreja e do reino de DEUS, recebendo luz e verdade e guiando o seu destino (da Igreja).
Eu contemplei esta Nação (Estados Unidos da América), que foi fundada sobre princípios corretos e designada a permanecer, porém ela estava cercada de iniquidades e forças sinistras, que procuravam conduzir os homens à destruição.
Eu vi vilas e cidades, os pecados e iniquidades de homens e mulheres. Vi navios velejando sobre os mares e os vastos campos marcados e feridos pela guerra na França e na Bélgica. Em uma só palavra, eu contemplei o mundo inteiro como ele era: Como um panorama passando diante de meus olhos. Daí, senti aquela inesquecível impressão de que toda a terra, as cenas e pessoas sobre ela, estão abertas à visão dos espíritos, mas somente quando é dada uma permissão especial, ou quando eles precisam fazer um serviço especial aqui. Isto é verdadeiro para aqueles espíritos dignos, que estão ativamente empenhados no serviço do Senhor, e para aqueles que não podem estar empenhados em dois campos de atividades ao mesmo tempo.
Os espíritos iníquos e impenitentes, tendo ainda, como todo mundo, o seu livre-arbítrio, não se aplicam em nenhuma incumbência útil ou salubre. Eles procuram prazeres nos velhos fantasmas e exultam no pecado e na miséria da humanidade degenerada. Neste sentido, eles ainda são ferramentas de satanás. São esses espíritos preguiçosos, danosos e enganosos que aparecem como miseráveis e fraudulentos em sessões espíritas, chamadas de mesas brancas e outras operações enganosas semelhantes, os espíritos nobres e grandes não atendem ao chamado do médium e de grupos de intrometidos inquiridores que aparecem. Eles não faziam isso na mortalidade e certamente não irão fazer agora em seu estado mais avançado de conhecimento no mundo da imortalidade.
Esses espíritos iníquos que não se arrependem, são espíritos aliados de satanás e seu exército, operando através de seus médiuns na carne; essas três forças, constituem um perverso triângulo ou trindade sobre a terra e são responsáveis por todo o pecado, iniquidade, aflição e miséria entre os homens e as nações.
Avancei mais em frente, banqueteando os meus olhas nas belezas que me cercavam e glorificando-me na desejável paz e felicidade que habitavam em todo aquele mundo e em todas as coisas. Quanto mais distante ia, as mais gloriosas cenas tornavam a aparecer.
Enquanto eu estava em pé, de um certo ponto, vi um templo maravilhosamente belo, com cúpulas de ouro, de onde saiu um pequeno grupo de homens vestidos com túnicas brancas, que pararam para uma pequena conversa. Esses foram os primeiros que vi vestidos dessa forma. Os milhões que tinha visto anteriormente, estavam logicamente, vestidos, porém eram vestimentas variadas e os soldados estavam, por exemplo, vestidos com uniformes.
Nesse pequeno grupo de homens, meus olhos se centralizaram em um deles, mais resplandecente e santo do que todos os outros. Enquanto eu estava assim contemplando-o, o Presidente Joseph F. Smith saiu do meio deles e veio para o meu lado. "Você sabe quem ele é?" ele perguntou. E eu imediatamente respondi: "Sim, eu o conheço, meus olhos contemplam o nosso Senhor e Salvador." - "É verdade", replicou o Presidente Smith. E oh! Como a minha alma estremeceu de êxtase e uma inexplicável alegria encheu o meu coração! O Presidente Smith informou-me, que eu tinha permissão para voltar e completar a minha missão na terra da forma como o Senhor tinha designado a cumprir; e aí, com a mão sobre meu ombro, proferiu estas memoráveis palavras:
"Irmão Heber, você tem uma grande obra a realizar. Ande com um coração devoto e será abençoado em seu ministério. Deste momento em diante, nunca duvide que DEUS vive, que Jesus Cristo é Seu filho, o Salvador do mundo e que o Espírito Santo é um Deus de Espírito e o mensageiro do Pai e do Filho. Jamais duvide da ressurreição dos mortos e da imortalidade da alma; que a missão dos Santos do Últimos Dias é pregar o evangelho para toda a humanidade, os vivos e os mortos e que o grande trabalho nos Templos Santos para a salvação dos mortos só está no começo e saiba disso, que Joseph Smith foi um enviado de DEUS para introduzir o evangelho na dispensação da plenitude dos tempos, que é a última oportunidade para os mortais da terra. Que seus sucessores foram todos chamados e aprovados por DEUS. O Presidente Heber J. Grant é, nesse momento, o reconhecido e ordenado cabeça de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias sobre a terra. Dê a ele a sua confiança e também o seu apoio. Muito do que você tem visto e ouvido aqui não será permitido repetir quando você voltar."
Assim dizendo, despediu-se e disse-me "Deus Te Abençoe".
Daí em diante, andei por uma considerável distância, passando por várias cenas e inumeráveis pessoas antes que eu chegasse na esfera, de onde eu tinha entrado no início. No caminho de volta, despedi-me de muitos amigos e parentes, sendo que alguns deles enviaram palavras de saudações e conselhos aos seus entes-queridos aqui; sendo que minha mãe era uma delas. Encontrei o irmão John Adamson, sua esposa, seus filhos James e lsabell, que foram mortos pela mão de um assassino na casa deles em Carey, Idaho, na tarde do dia 29 de outubro de 1915. Eles pareciam radiantes quando souberam que eu estava voltando para a mortalidade e imediatamente o irmão Adamson disse-me:
"Diga aos nossos filhos que somos felizes e estamos muito ocupados; que eles não devem lamentar a nossa partida e também, não devem preocupar suas mentes a respeito da maneira pela qual partimos. Há um propósito, e nós temos muito trabalho a realizar aqui, que requer nossos esforços coletivos e não poderíamos fazê-los individualmente."
Eu imediatamente entendi que o trabalho que estavam realizando era a genealogia; eles estavam trabalhando na Inglaterra e Escócia. Um dos maiores e mais sagrados no céu, é o relacionamento familiar, o estabelecimento de correntes completas, sem elos incompletos, traz alegria total. Elos totalmente estragados serão tirados e provavelmente novos elos serão colocados nas vagas, ou dois elos contíguos serão ligados juntos. Homens e mulheres em todo lugar do mundo, estão sendo motivados pelos seus antepassados falecidos para juntar genealogia.
Esses são os elos das correntes, as ordenanças de batismo, endowments e selamentos realizados nos templos de DEUS pelos vivos para os mortos. São as ligações dos elos. Ordenanças são realizadas no mundo espiritual confirmando os recebedores individuais e os princípios salvadores do evangelho realizados aqui.
Quando aproximei-me do lugar por onde eu tinha entrado, minha atenção foi atraída para um pequeno grupo de mulheres preparando o que parecia ser vestimentas.
"Nós estamos preparando a recepção para o irmão Phillip Worthington brevemente".
(Phillip Worthington faleceu no dia 22 de janeiro de 1920; o Presidente Hale foi notificado por telegrama, voltou para Boise e pregou no enterro dele no dia 25 de janeiro).
Quando admirado repeti o nome dele surpreso pela sua vinda, fui admoestado: "Se você soubesse da alegria e missão gloriosa que está sendo reservada para ele, você não pediria que ele ficasse por mais tempo na terra".
Aí, inundou a minha consciência esta terrível verdade: Que a vontade do Senhor pode ser feita tanto na terra como no mundo espiritual por nós e através de nós. Por causa do egoísmo do homem e a vontade pessoal, contra a vontade de Deus, muitas pessoas que talvez teriam partido em inocência e paz, tem continuado a viver e passado por uma vida de sofrimentos e misérias ou deboches e crimes; vivendo para seu próprio risco. Homens e mulheres e também crianças, são muitas vezes chamados para missões de grande importância do outro lado e respondem alegremente; enquanto outros recusam-se a ir, e seus entes-querido não os deixam partir. Também, muitos morrem porque não têm a fé para serem curados. Ainda outros, vivem muitos anos e passam por este mundo de mortais, sem qualquer manifestação especial ou ação da vontade Divina.
Quando um homem estiver aflito e doente, a pergunta de capital importância não é ... "Será que ele vai viver ou morrer?" Que diferença faz se viveremos ou morreremos, desde que a vontade do Pai seja   feita?
Certamente nós podemos confiar em Deus. É aí que entra o dever especial e privilégio de administração pelo Santo Sacerdócio, que é dado aos líderes de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, para efetuar a vontade do Pai, concernente àqueles sobre quem suas mãos estão colocadas. Se por alguma razão, eles não conseguem identificar a vontade do Pai, devem continuar orando com fé para aliviar a aflição daquela pessoa, mas humildemente concedendo supremacia para a vontade de Deus; para que a vontade Dele possa ser feita tanto na terra como nos céus.
Para uma pessoa justa, o nascimento no mundo espiritual é um privilégio glorioso e uma benção.
Os maiores espíritos da família do Pai Celestial, usualmente não permanecem muito tempo na carne.
Eles são chamados ao mundo dos espíritos para realizarem certa missão onde o campo é maior e os trabalhadores são poucos. Esta missão terrena pode, portanto, ser longa ou curta, dependendo de como o Pai quer que seja.
Quietamente passei por onde eu tinha entrado no mundo dos espíritos e imediatamente o meu corpo foi estimulado e levantei-me para ponderar sobre isso e para registrar as muitas coisas maravilhosas que eu tinha visto lá.
Permitam-me aqui e agora, declarar ao mundo que, sem preocupação do que outros possam pensar ou dizer; que eu sei através de meu próprio conhecimento e de minha própria experiência, que Deus é o Pai dos espíritos de todo homem e que ELE VIVE! QUE JESUS É O SEU FILHO E O SALVADOR DO MUNDO; que o espírito do homem não morre! Mas sobrevive a mudança chamada "morte" e vai ao
mundo dos espíritos; que o mundo dos espíritos fica sobre ou perto da terra; que espíritos tomarão seus corpos novamente na ressurreição; que os princípios de salvação estão sendo agora ensinados aos espíritos e que o grande trabalho de salvar a família do Pai entre os vivos e os mortos, está em processo e que, enfim, comparativamente, poucos serão perdidos; que o evangelho de Jesus Cristo foi novamente estabelecido na terra com todas as suas chaves, poderes, autoridades e bênçãos, através do chamado de
Joseph Smith; que isto é o poder que salvará e exaltará todos aqueles que se renderem à obediência aos seus princípios e que, enfim, salvará o mundo; que o fardo de nossa missão é salvar almas para Deus e que o trabalho para a salvação dos mortos é tão importante quanto o é o trabalho para os vivos.

 (NA DEDICAÇÃO DA CAPELA EM NEWCASTLE, AUSTRÁLIA, ELDER PAUL H. DUNN, DO PRIMEIRO CONSELHO DE SETENTAS, CONFIRMOU QUE ESTA MANIFESTAÇÃO FOI AUTÊNTICA E ACEITA PELA IGREJA).


A heavenly manifestation given to Heber Q. Hale, President of the Boise Stake of The Church of Jesus Christ of Latter-day Saints, as related by him at the Genealogical Conference held in the Auditorium of the Bishops' Building, Salt Lake City, Utah, October, 1920. (Requested by the Presidency of the Church in 1920.)